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sexta-feira, 4 de abril de 2014

a pequena grande Mary Jones

 
A história da Mary Jones sempre me foi muito querida. Após ter contado a história várias vezes a crianças, leio agora um livro "versão" adultos. A mesma emoção acompanha-me em cada página.
 
O thou who out of the darkness
Reachest thy trembling hand,
Whose ears are open to welcome
Glad news of a better land;
Not always shalt thou be groping,
Night´s shadows are well-nigh past:...
The heart that for light is yearning
Attains to that light at last.

[in Mary Jones and her bible]

Pequenina me sinto eu, perante tamanha vontade e amor pela Palavra demonstrada pela Mary. Mais de Ti, Senhor, quero eu!

sexta-feira, 28 de março de 2014

fazer um boneco e escrever uma história.

A história que inventou foi uma salganhada de florestas, leões, tigres, meninos, gelados, gatos e jantares em casa dos amigos. Deliciosa!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

sábado, 30 de novembro de 2013

porque todos têm uma história para contar...


A chegada do metro era aguardada em silêncio.
Subitamente, uma voz ecoa através do túnel e as palavras chegam em notas: "Cheio de penas me deito e com mais penas me levanto..." Ergo o olhar do meu livro e escuto. A voz era forte. Sofrida, mas cristalina. Aproxima-se calmamente um homem de cabelo grisalho e desgrenhado. Nas mãos, um saco de plástico. Ténis azuis da Nike de cor esbatida, calças de ganga e um casaco de fazenda axadrezado. Chega com uma alegria extra para uma manhã de quinta feira. Lê-se no olhar de muitos que se afastam com aquela ligeireza de quem não quer parecer indelicado, mas o é, de uma forma refinada.
"Tinha eu catorze anos...", começa o homem a contar com o olhar lá atrás, " quando a Amália me comprou um sumo e um palmier. No tempo em que ela cantava e tinha voz!"
O metro chega. As pessoas entram mais depressa do que o habitual, afinal o homem fala alto e parece estar no rol dos inconvenientes. Cheira a álcool, é alguém a evitar.
Lá dentro, encontra alguém que lhe dá troco na conversa. Um romeno, com um filho loiro de 6 anos, mais ou menos, de luvas e gorro enfiado na cabeça. O pai, possui um sorriso acolhedor e sincero. O homem do qual quase todos se desviaram prossegue. "Tinha eu quatro, cinco anos, já fumava. Apanhava beatas do chão e punha na boca. Um dia, um engenheiro comprou-me uns sapatos. Custaram 49 escudos! Depois deu-me 500 escudos para levar para casa. Dei-os à minha mãe que os guardou dentro do sutiã. Mas o meu pai viu, agarrou no dinheiro e foi logo para a taberna. Já passei muito... e ainda passo!" Os seus grandes olhos verdes enchem-se de um brilho especial, daquele que aparece quando a tristeza transborda da alma. Esboça um sorriso tímido e olha para o chão, perdendo a voz. Fez o mesmo que todos à sua volta fazem, ao evitá-lo. Cruzar olhares pode ser perturbador. E o seu olhar era um mundo. Um mundo de vida!

quarta-feira, 20 de março de 2013

histórias que ficaram lá atrás...

 
Passei uma tarde com os meus pais. Foi uma tarde de histórias de outros tempos, dos dias em que moravam com o meu mano no Luxemburgo e Inglaterra, voltando mais atrás, onde tudo começou, na Farinha Branca. Algumas delas eu já oiço desde miúda, mas é sempre como se as estivesse a ouvir pela primeira vez e o entusiasmo e brilho nos olhos que eles têm ao contá-las tem sempre a mesma intensidade.
O dia em que o meu pai chegou de comboio ao Luxemburgo e viu neve pela primeira vez, o momento em que a vizinha informou que era necessário limpar a neve do passeio à frente da casa, a roupa que a minha mãe estendeu em Outubro na rua e acordou com ar de bacalhau seco [percebeu então que a roupa lá só era colocada na rua no Verão] e as palavras que os emigrantes inventavam entre eles, como: granier [sótão], pubela [balde do lixo], vacanças [férias], briquetches ["carvão"] ou caixa da maladia [baixa médica].
A minha mãe teve um patrão que insistia em mostrar-lhe pinturas de quadros que a deixavam corada. Era a natureza, dizia ele. [despediu-se] Também teve outro, um velhote de 80 anos, que lhe pedia um beijo sempre que a via.
O meu mano levou sempre emoção ao dia a dia dos meus pais. Volta e meia ia brincar para casa de um amigo e esquecia-se de avisar, como certa vez em que foi para Alemanha, ali ao lado. Esta mania de "fugir" já vinha de longe, pois com 3 anos, na Farinha Branca, onde se vivia de porta aberta, tinha o hábito de escapar enquanto a minha mãe costurava. Quando ela dava por isso, lá tinha de lhe seguir o rasto na terra para o descobrir. Por norma ia ter a casa da prima Teles, que gostava muito de brincar com ele. Mas, a situação tornou-se mais enigmática, quando ao ver que o seu rasto era facilmente seguido, começou a caminhar pelas ervas. Gaiato esperto. Por Deus, escapou a poços e outras armadilhas. Devido a esta tendência de abalar sozinho, a minha mãe, com o meu pai na Guiné na altura, começou a assustá-lo com a polícia, dizendo que esta o podia levar. Parece que resultou, pois anos mais tarde, já no Luxemburgo, certa vez desceu a rua quase a rebolar com a bicicleta, após um carro da polícia ter passado por ele. Aterrou à porta de casa e estragou a campainha com a aflição.
Nessa altura os cereais e os iogurtes eram alimentos estranhos e, apesar da insistência do meu irmão, que dizia que era o que os colegas comiam ao pequeno-almoço, o meu pai teve receio e achou que aquilo não devia ser de fiar.
Em Inglaterra ficaram sem boleia para retornar à missão onde estudavam, após irem jantar a casa de uns amigos. Pediram à minha mãe e mano para darem um passo à frente e pedirem boleia, enquanto os restantes se escondiam. Regressaram à missão num jaguar, a velocidades alucinantes, dirigido por um hippy rico.
Ainda em terras britânicas, o meu mano e um amigo entraram num carro desconhecido para indicar onde era um determinado local. Regressaram a casa com a  polícia.
Nessa altura, tinham uns vizinhos holandeses que andavam em casa como vieram ao mundo, totalmente nus. Quando a minha mãe descobriu, o meu mano deixou de ir a casa do colega, pois está claro.
Ah... e há episódios ainda mais emocionantes. Numa próxima vez....
Não tenho dúvidas. As aventuras dos meus pais davam um livro.

terça-feira, 19 de junho de 2012

encontros

- Como é que te chamas? - perguntou.
- Jónatas.- respondeu com um sorriso.
- Jónatas... é um nome invulgar, original!" - constatou com um ar pensativo.- Eu tenho um nome vulgar. Ricardo!- continuou simpaticamente.
Estávamos no metro de Lisboa. A conversa deu-se entre a estação Baixa-Chiado e a Alameda.
Um sem abrigo, sentado no chão do metro com os seus dois fiéis companheiros. Dois cães pretos, um grande, cujo nome não fixámos, e um pequeno, chamado Putchi. "São a minha famlía!", informou ele no meio da conversa com o Jojó, que respondia a todas as suas perguntas com um sorriso tímido.
O homem de 27 anos, aspecto sujo, rosto gasto e cansado, trazia no olhar um sonho apunhalado, um vazio que parecia tentar preencher a cada golo que dava na Sagres que tinha na mão. Procurava algum alento. A mão livre fazia festas no Putchi. Perdi a conta das vezes que beijou o cão grande no focinho. Trocavam olhares cúmplices e carinhosos. Perguntou a idade do Jojó e informou quantos anos tinha. Concluiu o ano escolar em que o Jónatas andava e contou já saber ler e escrever antes de começar a 1ª classe. Pareceu-me ser um homem inteligente, com um discurso interessante, daqueles a quem  a vida tramou de alguma forma e não conseguiram erguer-se. Falou de tudo um pouco em breves minutos, sempre à medida de uma criança de 6 anos. Muito cordial no seu falar. Olhava-o nos olhos.
Quando chegámos à nossa estação o Jojó disse-lhe adeus. Ele respondeu: "Foi um prazer conhecer-te, Jónatas. És um menino cheio de estilo e muito simpático!"
Ao fim da tarde, ao falar com um amigo, ele partilhava que às vezes tinha receio pelo seu filho de 4 anos, pois sendo muito sociável, poderia ir embora com qualquer estranho. Entendi e concordei. Mas não pude deixar de pensar no Ricardo...