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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

tic tac

 
Há qualquer coisa nos objetos que pertencem à nossa infância. Como se a presença deles nos acalmasse, abraçasse até.
Cresci com este relógio na sala. Continua na parede da sala dos meus pais.
Em miúda, eu e o meu irmão, gozávamos e riamos sempre que tocava, de 15 em 15 minutos, e interrompia conversas ou algum filme ou série que estivéssemos a ver. Sim, porque o som era realmente sonoro. Sem o meu pai ver, prendíamos os pendões de modo a que ficasse mudo. "Eu gosto de ouvi-lo tocar!", dizia o meu pai. De 15 em 15 minutos?! Sério? Não entendíamos! Não sei se pela idade, parece-me mais discreto agora, o seu som. Se calhar sou só eu, que agora anseio por ouvi-lo. O toque do relógio da casa dos meus pais leva-me de volta à  casa onde cresci. A um porto seguro. Ao som destas badaladas sonhei e dancei. Chorei e ri. Quando o oiço, parte de mim encontra-se com a menina que fui outrora.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

a mala


Comprei esta mala quando ainda não tínhamos filhos. É a mala que levam quando passam uma noite fora, em casa dos avós, tios ou padrinhos. É um cheiro de casa que carrega consigo o entusiasmo de aventura fora dela. Tem passado de mano para mano. Seguram nela com alegria, no ir... e no regressar.
 

domingo, 25 de setembro de 2011

[objectos com história]


Estes dois conjuntos fazem parte da minha infância. Incrível, o poder de um simples objecto! As imagens, pessoas e momentos que ressuscitam em nós. Esta loiça antiga leva-me de volta aos bazares, lanches e jantares da igreja onde cresci. Se fechar os olhos ainda vejo a minha avó Guida e a D. Emília, ou Mimi, como eu lhe chamava em pequena, na cozinha a servirem arroz doce, rissois, pasteis de bacalhau, fatias de bolo de laranja e queques de cenoura. Ainda sinto os cheiros da comida, dos produtos feitos à mão que eram vendidos e da mobília antiga. As vozes dos amigos a conversar, a rir e das crianças a brincar acendem-se na minha mente. Em criança temos um mundo próprio que se desenrola entre o mundo dos adultos. Lembro os jogos que faziamos no salão, a selva e o lugar seguro. Depois, de vez em quando, um adulto ousava entrar na nossa selva. Que atrevimento! Então, transformavam-se num monstro ou animail feroz que tinhamos de evitar ou às vezes de combater, caso apanhássemos um adulto que ainda se lembrava de como era ser criança e conseguia entrar numa brecha do nosso mundo imaginário. Mas apenas o conseguiam por momentos. Só nós que viviamos dentro dele conseguiamos permanecer nele o tempo todo, até os pais irem embora ou a igreja fechar. Aí, saimos do túnel e regressávamos à realidade dos adultos. Nessa altura, ou quando a minha avó Guida chamava o meu nome com uma chávena de chá de limão na mão. As chávenas estão comigo desde ontem. Só não tenho as gentis mãos da minha avó para segurarem nelas. E há alturas em que me fazem tanta falta...