Todas as semanas fotografo estas árvores. Lembram-me de que o mundo não pára, que o tempo avança, que a vida muda e que há um Deus que controla isto tudo de forma perfeita. Que mesmo que nós paremos, tudo continua a girar. Somos pó.
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domingo, 11 de dezembro de 2016
domingo, 6 de novembro de 2016
feriado, que bem que soubeste!
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terça-feira, 26 de julho de 2016
os miúdos estão fora.
Este silêncio estranho e ao mesmo tempo saboroso, que temos sentido cá por casa nos últimos dias. Os minutos parecem multiplicar-se. O tempo chega mesmo a render. As viagens de carro são mais tranquilas e o relógio é olhado de maneira diferente. Tenho alguma dificuldade em lembrar que foi assim que vivemos durante os primeiros cinco anos do nosso casamento, sem filhos. O silêncio não abundava, já que tínhamos sempre gente em casa, mas o ritmo e a espontaneidade era outra. Por uns dias sabe bem ter um pouco disso. Só por uns dias...porque depois quero os meus rapazes de volta, com toda a agitação e regras que com eles vêm.
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quinta-feira, 30 de junho de 2016
abrigo
Sentar-me debaixo dela por alguns minutos. Abrir um livro. Fechar a realidade que me rodeia por um bocadinho e viajar. Atravessar continentes. Ver outras gentes. Sentir o oceano e o sol. Sempre, sempre escondida pelos ramos fortes desta árvore que me abriga.
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terça-feira, 14 de junho de 2016
o ontem já era!
Nos dias de hoje podemos sair no bairro onde cresci de metro. Bem, não propriamente no meu bairro, mas perto, ao lado daquela que foi a minha escola secundária. Na zona onde os meus dias aconteciam, entre estudo, fotocópias, aulas, trabalhos de grupo, torneios de futebol, corridas, dança, almoços e conversas. Sigo a luz. Subo as escadas da boca do metro e chego à superfície. O cheiro é familiar e sinto quase esta ambiguidade de me sentir segura num bairro que tem fama contrária. O cenário, apesar das mudanças que o desenvolvimento e a Expo 98 levaram, continua a ser-me acolhedor. Os cafés continuam característicos, assim como as pessoas calorosas que me atendem. Há um conforto muito específico colado aos lugares e às pessoas com as quais crescemos, é a conclusão a que chego. Como se nos conseguissem amar de uma forma mais desinteressada ou natural. Se bem que isto do amor tem muitas vezes mais de escolha do que de natural.
O cheiro a relva cortada dança no ar juntamente com o calor. Cheira às tardes de primavera passadas na escola, debaixo dos pinheiros, à conversa, ao som das violas. Consigo ainda sentir os sonhos que pulsavam em cada um de nós na altura. Os dramas, a intensidade e, ao mesmo tempo, a simplicidade com que os dias eram vividos e o futuro se desenrolava à nossa frente. O presente que mostrava um mundo seguro naqueles que nos rodeavam e um futuro que lembrava que o mundo era enorme e nos esperava. Pensávamos que o percorreríamos todos juntos, na altura. A ingenuidade era grande.
O cheiro a relva cortada dança no ar juntamente com o calor. Cheira às tardes de primavera passadas na escola, debaixo dos pinheiros, à conversa, ao som das violas. Consigo ainda sentir os sonhos que pulsavam em cada um de nós na altura. Os dramas, a intensidade e, ao mesmo tempo, a simplicidade com que os dias eram vividos e o futuro se desenrolava à nossa frente. O presente que mostrava um mundo seguro naqueles que nos rodeavam e um futuro que lembrava que o mundo era enorme e nos esperava. Pensávamos que o percorreríamos todos juntos, na altura. A ingenuidade era grande.
Chego ao meu bairro. Quem viveu num sabe que a vida é feita em comunidade. Cresce-se em conjunto. Partilha-se os dias, as dores, as notícias, os medos e as alegrias. Compra-se o pão acompanhado e olha-se as estações mudarem com mais do que um par de olhos. O cão da vizinha é um pouco nosso também. As conquistas de um são celebradas em grande, por muitos. O mundo é um lugar menos solitário num bairro. Assim se espera.
Olho as árvores que agora se erguem altas, um pouco por todo o lado. Um espelho dos anos. Cruzo-me com pessoas que não conheço. As crianças já não brincam na rua. Os becos escondidos já não existem. Vejo adolescentes que ainda não eram nascidos quando eu lá morava e sinto o peso dos anos, como um filme a passar-me diante dos olhos. A maioria das caras já não são familiares e não deixa de ser esquisita esta coisa de reconhecermos um local como nosso, mas ele já não nos reconhecer a nós. As janelas avistam-se diferentes. Mudam-se as cortinas e as caras que espreitam. Não há amigos a chamar e a dizer adeus. Há amigos de outra gente. É outro pulsar que vai ao encontro do meu com cheiro a ontem. É possível cheirar a distância. Entranha-se devagar e espalha-se no sangue, anestesiando.
Olho as árvores que agora se erguem altas, um pouco por todo o lado. Um espelho dos anos. Cruzo-me com pessoas que não conheço. As crianças já não brincam na rua. Os becos escondidos já não existem. Vejo adolescentes que ainda não eram nascidos quando eu lá morava e sinto o peso dos anos, como um filme a passar-me diante dos olhos. A maioria das caras já não são familiares e não deixa de ser esquisita esta coisa de reconhecermos um local como nosso, mas ele já não nos reconhecer a nós. As janelas avistam-se diferentes. Mudam-se as cortinas e as caras que espreitam. Não há amigos a chamar e a dizer adeus. Há amigos de outra gente. É outro pulsar que vai ao encontro do meu com cheiro a ontem. É possível cheirar a distância. Entranha-se devagar e espalha-se no sangue, anestesiando.
A minha praceta está envolvida num estranho silêncio. As janelas do 4ºandar permanecem fechadas, com as persianas corridas. Sinto-me menina por uns segundos. Desvio o olhar e agarro o presente. Sigo o meu caminho até à escola primária.
Sou rodeada por meninos e meninas com olhos cheios de esperança. Braços estendem-se com um sorriso franco. Após o recreio sentamo-nos debaixo da árvore que um dia já foi do meu tamanho. Olho para cima. A casa onde cresci ali ao lado. As janelas continuam fechadas. Desvio o olhar do passado e abro o livro.
Sou rodeada por meninos e meninas com olhos cheios de esperança. Braços estendem-se com um sorriso franco. Após o recreio sentamo-nos debaixo da árvore que um dia já foi do meu tamanho. Olho para cima. A casa onde cresci ali ao lado. As janelas continuam fechadas. Desvio o olhar do passado e abro o livro.
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
a árvore
Quando há dez anos mudámos de casa e de bairro, esta árvore foi a primeira coisa que despertou a minha atenção e me cativou. Há pouco tempo apararam-lhe os ramos que começavam a chegar ao chão. Colocaram à sua sombra um banco de madeira, que parece chamar-me todas as vezes que por ali passo. A sério.
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
rua de oração.
É assim que chamo a esta rua perto da nossa casa. Não tem habitações e nunca me cruzei com ninguém nela. Atravesso-a a pé, de vez em quando. E de todas as vezes, os passos são acompanhados de oração.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
voltar diferente
Pisar as mesmas ruas que palmilhei na adolescência. As árvores. Sempre as árvores. Gigantes. Bonitas, com aquela cor de outono. Há caminhos novos e os autocarros têm mais um número. As papelarias e cafés permanecem acolhedores. Tudo me pareceu mais pacato. Mas talvez seja apenas eu que estou mais tranquila.
Sonhos desabaram e foram construídos aqui. Medos foram vencidos. O sentido de esforço e união foram solidificados grandemente. Desporto foi praticado até à exaustão. Conversas nasceram e alongaram-se. As partidas, as almoçaradas, as palavras no meio das manhãs de nevoeiro, os torneios, as danças. As primeiras grandes desilusões foram aqui vividas a par dos ombros amigos. Foi aqui que pensei que havia caminhos que não se separariam e que descobri a ilusão de tal. Também foi aqui que orei bastante. E, ao passar pelo mesmo local 20 anos depois, sorrio ao abraçar as respostas de Deus. Deus é bom. Deus é sábio e generoso. Amigos que estavam perto na altura, estão perto novamente e de uma forma muito mais bonita.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2015
a casa que já não é minha.
Cresci no último andar de um prédio, com vista para o Tejo. De manhã o sol nascia sobre o rio e nas noites luminosas era ver a lua estendida sobre a água. Isto e a chuva forte em dias de tempestade, tudo admirado da janela da cozinha, sempre como se fosse a primeira vez.
Regressar ao bairro, às ruas onde me movi até aos meus 18 anos tem um sabor misto de alegria, tristeza, estranheza, familiaridade e gratidão. É andar ao ritmo das lembranças que surgem a cada passo, ao passar por cada rua, paragem, estabelecimento e recanto. O ambiente, os cheiros, a cor do bairro nos dias de sol e nos dias cinzentos que acompanhavam tantas vezes o meu estado de alma em adolescente e abraçavam em criança. As árvores estão enormes.
A praceta, mais pacata que outrora, mais quieta. Mas, se fechar os olhos, ainda vejo o vizinho Fernando à porta do prédio na sua cadeira de rodas, informando quem estava em casa e quem já havia saído. A cadela Lassie a ladrar e a correr para nós e o dia em que deixou de o fazer. Uma certa vizinha do r/c a espreitar sorrateiramente e as nossas vozes despreocupadas, a correr e a brincar. Uma mãe de uma amigo que nos mantinha hidratados, dando copos de água pela janela. Vejo uma amiga a chegar e a acenar com um jornal desportivo ou uma revista de música na mão. Um grupo a jogar às escondidas à noite, a mangueira a dar banhos no Verão, os vizinhos a plantarem juntos as árvores e flores, a fazerem os canteiros. Bicicletas a descer a praceta e alguém a acabar no chão. Fintas aprendidas com uma bola de futebol, trabalhos da escola a serem feitos em conjunto, duas meninas a observarem uma trovoada abrigadas e tanto, tanto mais.
Em miúda, sonhava com o dia em que desceria a praceta vestida de noiva. Deus quis fazer as coisas de um modo diferente.
Desci e subi esta rua vezes sem conta. Nela aprendi a andar de bicicleta, fiz corridas com o meu pai, apanhei borboletas com a minha avó Guida, fui ter com a minha mãe ao lar a imaginar histórias na cabeça, joguei à sirumba com riscos feitos no chão e à bola até cair para o lado. No tempo em que as balizas eram feitas com duas pedras, os carros raramente passavam e os prédios do lado esquerdo não existiam e o rio estava sempre no nosso horizonte, como um presente constante. Talvez por isso fez-me tanta falta ver o rio quando saí dali.
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quinta-feira, 5 de novembro de 2015
o regresso.
Sentada num café com uma amiga, perto da minha escola secundária. Olho através da janela e sinto-me em casa. Comemos um croissant de ovo, quente e fofo, por 1 euro. Preços e simpatia de bairro. Arranjam-nos uma mesa à pressão e falam connosco como se vivêssemos ali ao lado, acolhedoramente.
A providência de Deus às vezes é sentida de forma mais especial. Está sempre lá, Ele age de forma constante na nossa vida, no mundo, mas há ocasiões em que o sentimos de uma forma inabalável, nos detalhes incríveis que vivemos e as palavras são tão pequeninas para o explicar.
Regresso ao bairro que amo, onde nasci e cresci, devido a um projeto bonito. Volto à minha escola primária, quando nada o fazia prever. Afinal de contas não sou professora, nem psicóloga, assistente social ou auxiliar. Ainda assim, 20 anos depois, Deus leva-me de volta ao bairro que deixei, num projeto pioneiro no nosso país. E, 30 anos mais tarde, retorno à minha escola primária.
As emoções forma várias e confesso que foi com algum esforço que não chorei. Ah, mas os sorrisos não puderam ser evitados. As árvores estão gigantes. Há uma, nas traseiras da escola, que chega agora à janela do meu antigo quarto. À entrada do portão tive a primeira memória. Uma que estava guardada em alguma gaveta do meu cérebro e que acendeu apenas na hora, ao revivê-la. Uma poça de água no chão de cimento, no mesmo local. Deverá acontecer devido a uma inclinação do chão, percebi eu agora. Lá estava ela, exatamente no mesmo local. E, tal como em criança, desviei-me dela para entrar. Desta vez entrei sem qualquer ansiedade, ao contrário do tempo em que era pequena e havia tanto que me assustava. A entrada já não me pareceu tão grande e o ginásio, onde fazíamos as festas de final de ano e para onde todas as turmas iam nos dias de chuva [era a confusão no seu estado máximo] já não é gigantesco, mas sim pequeno. Os espaços têm uma dimensão tão diferentes quando crescemos. Os corredores ficaram mais estreitos, aos meus olhos. Mantém-se o cheiro. A escola cheira igual! Os bancos de cimento nos corredores continuam lá, com um ar mais desgastado. A sala dos professores também me parece ter encolhido. Entrar no mesmo local tantos anos depois foi um misto de sensações. Olhar o recreio do interior, como adulta, como mãe. Reconhecer algumas caras nas auxiliares, provavelmente pessoas do bairro, ainda não me atrevi a perguntar. Sorrir a uma menina que ficou à janela a dizer-me adeus incessantemente, enquanto conversava com a professora. Ver nessa menina tantas colegas minhas e um mundo de crianças a precisar de atenção. Ouvir atentamente acerca das necessidades dos alunos e perceber tão bem. Recordar as gentes que conheci, os colegas, os vizinhos e perceber os desafios, as lutas, as dores. Sentir alguns na pele. Chorar pelo bairro que amo e entender que só mesmo a graça de Deus poupa e sustenta cada um. Aquela graça que dá a todas, generosamente e livra de tanto. Sem ela, só haveria escuridão ali.
Que Ele me ajude a levar o que é necessário.
Já dentro do carro, pronta para ir embora, uma imagem recorrente. Um vizinha, na minha primeira casa, colada à escola, a estender a roupa. O cabelo, esse era outro. Todo branco. Os movimentos a colocar as molas, mais lentos. O olhar menos curioso na rua, mais atento na roupa que tinha em mãos. Vou embora. Levo o cheiro do meu bairro comigo.
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