

Estes dois conjuntos fazem parte da minha infância. Incrível, o poder de um simples objecto! As imagens, pessoas e momentos que ressuscitam em nós. Esta loiça antiga leva-me de volta aos bazares, lanches e jantares da igreja onde cresci. Se fechar os olhos ainda vejo a minha avó Guida e a D. Emília, ou Mimi, como eu lhe chamava em pequena, na cozinha a servirem arroz doce, rissois, pasteis de bacalhau, fatias de bolo de laranja e queques de cenoura. Ainda sinto os cheiros da comida, dos produtos feitos à mão que eram vendidos e da mobília antiga. As vozes dos amigos a conversar, a rir e das crianças a brincar acendem-se na minha mente. Em criança temos um mundo próprio que se desenrola entre o mundo dos adultos. Lembro os jogos que faziamos no salão, a selva e o lugar seguro. Depois, de vez em quando, um adulto ousava entrar na nossa selva. Que atrevimento! Então, transformavam-se num monstro ou animail feroz que tinhamos de evitar ou às vezes de combater, caso apanhássemos um adulto que ainda se lembrava de como era ser criança e conseguia entrar numa brecha do nosso mundo imaginário. Mas apenas o conseguiam por momentos. Só nós que viviamos dentro dele conseguiamos permanecer nele o tempo todo, até os pais irem embora ou a igreja fechar. Aí, saimos do túnel e regressávamos à realidade dos adultos. Nessa altura, ou quando a minha avó Guida chamava o meu nome com uma chávena de chá de limão na mão. As chávenas estão comigo desde ontem. Só não tenho as gentis mãos da minha avó para segurarem nelas. E há alturas em que me fazem tanta falta...